Tuesday, April 18, 2017

O que é um livro do artista?

O livro do artista não é um livro para crianças, nem um caderno de desenhos ou “sketch book”, nem  um catálogo, nem um diário, nem tampouco um livro de texto, ou um livro de história, ou um livro de arte.  Nem são livros com reproduções de obras de artistas ou obras de arte. Nem mesmo são um livro ilustrado por um artista.
O livro de artista  ou livro-objeto é um objeto de arte que fala por si mesmo, podendo extrapolar inclusive o próprio conceito do “livro”, não necessitando de serem lidos para serem compreendidos. Na verdade, a leitura deve ocorrer na estrutura geral do livro, e não pelo seu texto. Em sua grande maioria, livros de artistas são objetos de experimentação, podendo conter múltiplos discursos e poéticas.
  Desta forma, ele rompe com o formato mais conhecido do livro, e busca sua identidade na produção imagética própria das Artes Plásticas. Mesmo quando o livro-objeto pode ser lido, este ainda NÃO é o seu objetivo, embora esta leitura possa ocorra de uma forma distinta. Ela é pode ser realizada por meio de palavras soltas, sentenças curtas ou por um discurso mínimo ou apenas um discurso imagético.
O livro é entendido nele mesmo como uma obra de arte.   Muitas vezes, essa “arte ao alcance das mãos” visa despertar uma estranheza ao leitor-espectador, despertando-lhe outros sentidos, muitas vezes diferentes das dos livros comuns. Nas palavras de Ludmila Britto, “O livro de artista seguiu o desejo das atitudes artísticas dos anos 1960 e 1970 de ampliar e buscar novos caminhos para a arte, questionando os espaços expositivos convencionais e propondo aos espectadores, experiências estéticas sinestésicas que rompiam com uma contemplação restrita à visualidade vinculada aos espaços consagrados das galerias e museus. Além disso, os suportes tradicionais foram renovados (ou desmaterializados […]), seguindo o legado dumchampiano de questionamento do objeto-arte e dos espaços institucionais, este último como agente legitimador da arte.” (BRITTO, 2009)
Büchler (1986) nos dá ainda outra definição: “… Livro do artista pode ser visto como uma arte de ação, uma espécie de happening ou teatro, considerando a situação em que o trabalho é experimentado, e que exige a participação do leitor. O livro fica no centro de tal situação, mas a experiência do livro é definida pelo leitor.”
O livro de artista também desafia as leis da era da reprodutibilidade técnica (mencionada por Walter Benjamin-1955). Um livro convencional possui um certo número de tiragens, enquanto o livro-objeto comumente possui uma pequena tiragem ou, como é mais comum, apenas um único exemplar.
Estes objetos comumente apelam à percepção humana, e desvinculam-se das formas e funções esperadas; eles não atravessam crise alguma na identidade, pois adotam naturalmente a função de objeto artístico. Eles são produzidos em pequena escala ou, consistem de um único item de colecionador.
Não é intenção do livro-objeto eliminar a versão de livro criada por Gutenberg, e sim ser, um desdobramentos de sua evolução, completando a antiga forma, sem nenhuma outra pretensão. Com a perda da aura icônica do livro comum, berço do conhecimento e saber, idolatrado e demonizado através dos séculos, o livro-objeto passa a ser mais uma função do objeto livro onde a desmistificação também faz parte desta função.
É mais uma opção criativa, que pode ocupar o espaço hibrido do ofício literário e integrá-lo ao universo das Artes Plásticas. O livro-objeto ou livro do artista se inserem na fronteira movediça  entre a literatura e a produção visual.

Rosane Viégas






REFERÊNCIAS
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter (org.) Magia e técnica, arte e política. Vol. 1–8ª ed. Brasiliense. São Paulo, 2012.
BRITTO, Ludmila da Silva Ribeiro de. A poética multimídia de Paulo Bruscky. 2009. 220 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais). Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2009. p. 134.
BÜCHLER, Pavel. Turning Over The Pages : Some Books In Contemporary Art. Kettle’s Yard Gallery, 1ª edição. Cambridge, England; 1986.
BURY, Stephen. Artists’ Books: The Book As a Work of Art, 1963–1995. Scolar Press, 1ª edição. Leicester, England; 1995.

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